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Textos Críticos
"Terra distante", JS Machado, Lisboa/ Portugal
Ana Paula Albé expõe em Portugal pela primeira vez duas séries de trabalhos fotográficos recentes que remetem directamente para o universo da paisagem.
Fotografando tacos de madeira, rodapés parcialmente destruídos e pedaços de parede rachada, a artista entretece relações de correspondência - à maneira dos trompe l’oeil - entre os seus ínf(t)imos destroços quotidianos e paisagens naturais. Noutros casos, simula a rememoração ou reconstrução emocional de paisagens que o tempo varreu do seu olhar vivente, remetendo-as para o tempo forte e utópico das origens, que T. S. Eliot designou de “Waste Land” e a poetisa italiana Alda Merini (de quem retirei o título deste texto) chamou “A Terra Santa” – “lugar novo/ que quando convém/te envia o seu raio nu/para dentro da cela muda.”
Linhas de água, horizontes recortados, superfícies aquáticas em repouso ou agitadas, composições de matriz simbolista, privilegiando os aspectos plásticos da imagem, trabalhos de extrema depuração formal, nos quais se instaura uma radical abstracção geométrica em formato digital ou infiltrações que abrem nas paredes linhas horizontais – desenhos singelos – foram coligidos pela artista, numa espécie de cartografia exaustiva de como os estragos construtivos podem favorecer a criação. Ou antes, a artista instala aqui uma polaridade constante entre a destruição e a possibilidade de criação ou renovação. À maneira dos apocalipses, para os quais se exige a completa ruína do presente como condição necessário ao ressurgimento de uma nova criação liberta da matéria espúria.
Por outro lado, a exaltação do detalhe e a celebração do pormenor como local de culto por excelência, estabelece um novo nível de correspondências entre o substancial e o desprezível.
José Sousa Machado
Abril 2009